domingo, 16 de agosto de 2009

Um escritor único. Escatológico, melodramático, cínico, marginal (izado), anti-acadêmico, anti-grupos literários, anti-guru, alcoólatra lírico, machista, politicamente incorreto, anarquista e um puta poeta, contista e romancista radicado nos EUA.

Henry Charles Bukowski Jr., nascido em Andernach, no dia 16 de agosto de 1920. Filho de um soldado americano e mãe alemã. Se mudou com seus pais ainda quando criança para a América do Norte. Cresceu nos guetos de Los Angeles. Vindo a falecer na cidade de San Pedro na data de 9 de março de 1994, aos 73 anos de idade, por complicações causadas pela leucemia. Em seu túmulo esta grafada o seguinte ditado: "Don't Try", "Nem Tente", traduzido.

Foi uma criança atormentada por um pai extremamente autoritário e frustrado, que descontava os problemas pessoais o espancando pelos motivos mais fúteis e banais. Quando atingiu a adolescência, somou-se a este incidente o fato de ter o rosto e toda a parte superior do corpo literalmente tomada por inflamações cutâneas que o obrigaram a submeter-se a exaustivos tratamentos médicos no hospital público de sua cidade. Na escola, a situação também não era das melhores. Havia poucos amigos com quem se estabelecia uma relação instável, e quase sempre era excluído pelos demais colegas de classe.

A falta de carinho familiar e a humilhação de ter um rosto deformado por uma doença de pele rara, obrigaram-no a fugir. Largou os estudos para só retornar tempos mais tarde. Neste período descobriu duas coisas que o ajudaram a tornar a sua vida mais suportável: o álcool e os livros. Apesar de ter cursado jornalismo sem nunca ter se formado, teve graves problemas com alcoolismo e trabalhou em empregos temporários em várias cidades americanas, como carteiro, frentista e até motorista de caminhão ganhando uma merreca. Bukowski começou a escrever poesias aos 15 anos, mas seu primeiro livro foi publicado somente 20 anos depois, em 1955. Em 1962 estreou na prosa caracterizada pela descrição de sua vida pessoal.

Iniciava-se assim uma vida errante numa juventude conturbada, bebendo em excesso e escrevendo alucinadamente. Os produtos destas noites e mais noites de exercício literário eram enviados para as mais diversas publicações independentes dos Estados Unidos, mas quase sempre recusados. Algumas poucas editoras, no entanto, estavam convencidas de que Bukowski era um gênio.

Bukowski vivia em um mundo atormentado e distorcido, totalmente fora dos padrões impostos pela sociedade de sua época. O escritor nunca fez questão de esconder que seus trabalhos eram, quase sempre, autobiográficos. E sua falta de discrição era tão grande, que durante toda vida teve de lidar com a quebra de laços de amizade e rompimentos amorosos. Ele citava, sem qualquer preocupação, nomes e, quando muito inspirado, fazia duras críticas às pessoas que o cercavam. Algumas vezes os personagens "nada fictícios" ficavam sabendo das peripécias do poeta bêbado somente após a publicação dos textos. O que resultava em amizades findadas para sempre.

A cidade de Los Angeles, suas ruas e atmosfera, foram sua principal influência, tratando de histórias com temas simples, misturando, por exemplo, jogos e apostas em corridas de cavalo, relacionamentos com prostitutas, o gosto pela música clássica e o vício por bebida. Mais tarde somaram-se mais de 50 livros escritos, sem contar milhares de publicações baratas; jornais alternativos, revistas undergrounds, periódicos...

Nesta época apesar de ter quase quarenta anos, Bukowski era apenas um poeta iniciante. A capacidade de codificar o dia-a-dia em poesia, de sublimar as bebedeiras triviais, transcender as angústias e transformá-las tudo em arte, é a mágica que permeia toda a obra do velho "Buk".

Uma escrita obscena de estilo coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos que fascinaram gerações de jovens à procura de uma obra com a qual pudessem se identificar.

E a verdade de Buk é esse dia-a-dia da classe trabalhadora. Seus subúrbios, suas brigas, seus sonhos destruídos, suas palavras singelas. Nos seus personagens simples, complexos e por isso mesmo tão reais, vê-se a decadência do “american way of life”. Um país tão rico e orgulhoso de si que tenta esconder o lado obscuro e sujo de si mesmo.

Temática que entra neste contexto, narrando à vida das pessoas comuns: que trepam, que se ferram pra pagar aluguel, que bebem até a última gota na madrugada para acordarem numa bruta ressaca no dia seguinte, que trabalham ou se fodem procurando por um emprego explorador, que não são tão inteligentes ou cultas a ponto de ser um winner numa sociedade “perfeita”.

Repulsa, nojo, ódio, amor, paixão e melancolia. Esses são alguns dos sentimentos que mais inspiraram Charles. Alemão que passou a vida nos becos dos Estados Unidos, na composição de toda sua trajetória. Cada poesia, cada romance e cada conto do escritor traz um pouco da vida do "Velho Safado". Foi como ficou conhecido no mundo inteiro.

Quando ainda funcionário dos Correios até os 49 anos, sonhou quase que a vida inteira em ser reconhecido pelo seu trabalho como escritor. Dono de um talento nato, o poeta usava a simplicidade e a singularidade dos fatos mais rotineiros e rascunhava o cotidiano lapidando tudo como obra de arte. Inconformado e, sempre, com uma garrafa na mão, ele sentava em sua antiga máquina de escrever e, com uma sutileza surpreendente, deixava fluir seus pensamentos sem censura alguma.

Uma de suas principais atividades durante anos após ter abandonado o emprego nos correios, foi a leitura de suas poesias em universidades e eventos culturais. Sua leitura debochada às vezes provocava escândalos e brigas com a platéia. Já nos anos 1980, Bukowski desfrutou de certa fama, convivendo com artistas famosos e tornando-se uma celebridade.

Escreveu, entre outros livros, "Cartas na Rua", "Misto-quente" e "Factótum". Estes são apenas alguns dos excelentes romances de Charles Bukowski, que também além de poeta e de ter trabalhado em diversos subempregos durante a vida inteira foi consagrado como escritor e teve com isso seu merecido espaço nas prateleiras da contemporânea literatura americana.

Foi com um estilo violento e despudorado de linguagem, que acabou inclusive tendo desdobramentos no cinema. Mas poucos são aqueles que como ele, vivenciaram e permaneceram com naturalidade na sargeta sangrenta, fazendo dela, sua fonte de inspiração. Ele fez de todo aquele inferno imundo e fedido, o seu paraíso.

São belos losers como este que incomodam uma sociedade enlatada, simplesmente por existirem.

Não há como se sentir maltratado e intrigado ao ler nos romances do Buk, diálogos como esse:

"- Eu odeio pessoas, você não?
- Não. Só quando elas estão perto de mim."

Ou sair ilesos como noutro trecho de um poema sobre seu pai, a quem odiara com todas as forças.

"the rat"

(...)
eu? Tenho 30 anos, a cidade está quatro ou cinco vezes maior, mas tão acabada quanto e as garotas ainda cospem quando passo, outra guerra se cria por outra razão, e não consigo emprego agora pela mesma razão de outrora: não sei fazer nada, não consigo fazer nada.

Parecia que ia chorar quando terminou os últimos e tristes versos deste poema, durante uma das muitas leituras que realizou nos intestinos das faculdades burguesas, mas mudou de repente e começou a representar o rebelde novamente, quando uma ninfetinha qualquer que estava na platéia ousou dizer que o conhecia. Ele retrucou grosseiramente:

"Não seja insolente, gracinha..." ameaçando, desatar a rir. "Mais uma cerveja e vou pegar todos vocês." Jogou a cabeça para trás, deixando à mostra os dentes estragados, e gargalhou. "Ahá, ahá, ahá...

sexta-feira, 3 de abril de 2009

CARICATURAS DO VELHO BUK

By Tempesthole (2008)
By John Cuneo (NY Times, Book Review - 2004/2008)

C. Schultz & C. Bukowski (tira - versão original)

By Charles M. Schultz

Tirinha traduzida para o Português/Brasil

Tradução da tira por Denise C. F. Silva